O poder do home office: histórias de quem é mais feliz

Com a ajuda da tecnologia, o trabalho remoto é um recurso para ganhar flexibilidade, tempo, foco e produtividade. Veja como aproveitar essa flexibilidade no trabalho e dicas para saber usar o benefício a seu favor

 

O primeiro registro conhecido no Brasil da ideia de substituir o escritório pelo expediente em casa surgiu em 1997, durante o seminário Home Office/Telecommuting, que projetava os formatos de trabalho do terceiro milênio. Duas décadas depois, às portas da quinta geração das redes móveis, a jornada remota finalmente se popularizou. De acordo com uma pesquisa do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), em 2018 o país já tinha 3,8 milhões de adeptos do home office, disparado o maior número aferido até então.

E não se trata apenas de empreendedores, consultores, “PJs” (pessoas jurídicas) em geral ou trabalhadores informais. Profissionais CLT também podem — e fazem — uso desse formato alternativo de expediente. Até a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) precisou se posicionar, como fez no artigo 6º da lei 12.551 de dezembro de 2011, que assegura: “Não se distingue entre o trabalho realizado no estabelecimento do empregador, o executado no domicílio do empregado e o realizado a distância, desde que estejam caracterizados os pressupostos da relação de emprego”.

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Tudo dentro da lei, a dúvida que fica para o próprio trabalhador é: como o home office funciona? Ou, mais precisamente: como fazer para o home office funcionar?

 

HOME OFFICE É DEVER DE CASA

Trabalhar de forma remota é uma tendência global, sobretudo em tempos de flexibilização das leis trabalhistas. Essa lógica se aplica especialmente aos colaboradores PJ, que, para os direitos fossem equilibrados, aproveitam a ausência de vínculo celetista com a empresa contratante para expandir seus jobs. “Os modelos de relação de trabalho mudaram muito. Hoje, há quem tenha duas ou três profissões para obter uma renda melhor”, diz Arthur Igreja, palestrante e professor da FGV especializado em Tecnologia e Inovação.

Viabilizar a execução de tarefas diversas é um grande benefício do home office para os profissionais PJ, mas os colaboradores com carteira assinada também encontram vantagens bem interessantes em trabalhar de casa. Um ganho universal tanto para PJs quanto para celetistas é a economia de tempo de deslocamento entre a residência e a empresa.

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Se calcularmos meia hora para ir mais meia hora para voltar (uma média baixa em qualquer cidade grande do país), o trabalhador que fizer dois dias semanais de expediente em casa terá poupado, ao fim do mês, pelo menos oito horas. Se o tempo para chegar ao trabalho for o dobro, de uma hora (uma média bem mais comum), basta fazer um dia de home office por semana para ganhar um dia inteiro de trabalho (ou oito horas acumuladas) ao fim do mês.

“O home office traz flexibilidade, porque permite adaptar os horários de acordo com a execução do trabalho”, diz Mariza Baumbach, analista comportamental e especialista em Carreiras, sobre uma característica que é ao mesmo tempo um benefício e uma armadilha da jornada em casa. O trabalho remoto amplia as possibilidades de conciliação entre demandas profissionais e pessoais, mas exige a priorização das obrigações. Para buscar seu filho na escola ou resolver um assunto particular, você terá de encaixar o seu afazer numa pausa do trabalho, acelerar a produtividade ou compensar a parada prolongando o expediente.

 

PRODUTIVIDADE X SOFÁ

A sensação de “maravilha, estou no meu sofá” é um grande veneno para o rendimento. “Nosso cérebro arruma desculpas para tudo o que não queremos fazer. Para não correr o risco de postergar, tenha entregas claras”, diz Vanessa Guimarães, consultora de Marketing e autora do eBook Gestão do Tempo para o Home Office. Ter entregas claras significa não apenas saber qual é o foco e o prazo, mas também determinar um cronograma de trabalho para realizá-las.

Caso você tenha um relatório para enviar ao seu chefe até as 15h, deixe programado suas pausas — mas não programe muitas. Nas paradas, não mergulhe de cabeça nas redes sociais, na TV ou em qualquer distração que possa persuadi-lo a largar o trabalho. Pausas são necessárias e até produtivas para a criatividade, mas ficar tempo demais longe do que você estava fazendo é improdutivo e cobra mais esforço para a retomada de raciocínio. Lembre-se que para sobreviver bem a essa “vida mista”, seu nome precisa ser “disciplina”, e seu sobrenome, “planejamento”.

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“Há pessoas que se organizam com agenda, outras que preferem um quadro na parede com as anotações da semana”, diz a analista Mariza Baumbach. “O importante é que o recurso seja funcional e faça efeito no seu dia”. Para quem continua dependente da agenda de papel, nenhum problema. Mas usar aplicativos com essa função se tornou tão mais prático, que a migração para uma ferramenta digital merece ser encorajada. Do prosaico e eficiente Calendário do smartphone (que incorpora automaticamente as tarefas e os compromissos do Gmail) aos apps Trello e Monday, colocar ordem nas nossas vidas ficou mais fácil do podíamos imaginar.

 

AS BOAS PRÁTICAS PARA TRABALHAR EM CASA

Para que a relação de confiança entre você e seu chefe não se desgaste com o home office, passe uma lista das tarefas previstas e a mantenha atualizada (sem exageros) dos seus progressos. “Deixe o dia programado. O combinado não sai caro”, aconselha Mariza Baumbach. Essa é uma forma da chefia perceber também que o fato de você estar em casa não o torna mais disponível para executar tarefas extras do que os colegas que estão no escritório.

Uma vez em casa, você tem todo o direito de trabalhar de pijama, até o óbvio limite do bom senso. O seu home office não é justificativa, por exemplo, para entrar na videocall descabelado, mal vestido e em um ambiente bagunçado. E não, não é o caso de justificar. Simplesmente não faça. Nessa situação, você precisa temporariamente vestir a máscara corporativa e se comportar como se estivesse na empresa, com barba aparada, maquiagem retocada, roupa apresentável e um cenário neutro de fundo, sem ruídos nem barulhos inconvenientes.

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Tem criança sapeca em casa ou bicho de estimação? Tranque-se num cômodo sossegado e abuse do botão “silenciar” (que corta o seu microfone) durante a chamada. Lembre-se: é a sua reputação profissional que está em jogo.

 

EMPRESAS QUE INCENTIVAM O HOME OFFICE

As empresas de TI e telecom deram uma contribuição colossal para criar equipamentos, serviços e aplicativos que viabilizam o home office moderno. E, como não seria diferente, estão entre as que mais incentivam e dão o exemplo de como o trabalho remoto pode ser proveitoso.

É assim com a Dell Technologies. A opção de trabalhar de casa é uma possibilidade para os colaboradores e fazem parte da política de Connected Workplace (trabalho remoto) da empresa. “Essa política se aplica a grande maioria dos funcionários, com exceção das funções que exigem presença física no local de trabalho, como por exemplo, fábrica, logística, medicina. Além disso, também é considerada a senioridade da função para definir a elegibilidade, uma vez que cargos iniciais precisam de maior supervisão e coaching”, diz Luiza Heinen, RH generalista da filial de Eldorado do Sul.

A consultora interna de RH explica como é feita a avaliação sobre a produtividade dos funcionários durante o home office. “Pela performance e entrega dos resultados em vez de pelo controle da presença física no local de trabalho. Essa é a maneira como os gestores avaliam. Além disso, a relação de confiança construída entre líder e funcionário, que acontece por meio de uma estrutura organizada com reuniões periódicas e de ferramentas que facilitam a comunicação permanente com o time também ajudam a acompanhar a performance. Algumas áreas têm métricas que ajudam a visualizar a entrega”, conta Luiza. “A empresa valoriza muito o equilíbrio entre vida pessoal e profissional. O home office vem para contribuir com essa premissa, o que estabelece uma relação mais positiva com a corporação, aumentando o nível de satisfação, engajamento e reduzindo o turnover. Juntamente a isso, o funcionário mantem uma postura profissional, sendo produtivo da mesma forma que teria se estivesse presente no escritório”, conclui.

 

HOME OFFICE FUNCIONA PARA TODO MUNDO?

Nem sempre. O home office pode ser ótimo para alguns colegas, mas não funciona para todas as pessoas da mesma forma. A ausência física das reuniões e a falta de contato com outros profissionais diminui as trocas de ideias e podem, sim, ser determinantes para o bom desempenho em certos cargos e o exercício pleno de algumas profissões. Mesmo quem pode perfeitamente trabalhar de casa e já se acostumou com a prática percebe os prós e contras desse formato.

“Sempre trabalhei de modo presencial, cumprindo horários, batendo cartão… Seguindo a rotina corporativa. Quando surgiu a oportunidade de trabalhar em home office, festejei. Para mim, não precisar pegar trânsito e ter liberdade de horários parecia um sonho”, conta a auxiliar administrativa Larissa Oliveira. “Doce ilusão. Trabalhar de casa exige o dobro de disciplina para que você não se perca entre entregas e serviços domésticos. É uma linha bem tênue. Para tentar fugir disso, comecei a fazer de casa uma extensão da minha vida corporativa. Determinei horários fixos para tudo: acordar, almoçar, tomar café, finalizar o expediente…”, explica Larissa. “Não é fácil quando o controle remoto da TV está tão próximo, mas se não for assim, o trabalho não rende”.

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Paradoxalmente, uma tentação comum a quem adota o home office é a compulsão por… trabalhar! “Apesar de ter a minha própria empresa e atuar nesse formato, prefiro ir para um espaço de coworking. Comecei a ter problemas em separar a vida pessoal da profissional em casa, principalmente por não saber o momento de parar. O que me ajudou bastante foi estabelecer uma rotina com horários fixos”, diz a gerente de projetos Helga Silva.

Outra queixa clássica dos “home officers” é a ausência sentida dos colegas de empresa. “Sinto falta de companhia, de ter colega de baia para dividir os problemas, de alguém para tomar um café e relaxar”, conta Helga, que elege a economia de tempo a grande vantagem do trabalho remoto. “Como moro na periferia de São Paulo, demoro pelo menos uma hora para chegar a qualquer lugar”.