Receptividade com funcionários LGBTQI+ faz diferença nas empresas

Em 2019, a orientação sexual das pessoas ainda é nota de corte na hora da contratação e promoção dentro de muitas empresas. Não deveria. Quem abraça a diversidade ganha em produtividade e humanidade dentro da corporação

O preconceito com pessoas da comunidade LGBTQI+ acontece em todas as áreas. E esse tal de não gostar ou discordar da orientação sexual do outro se transforma em violência com grande frequência. Os dados são alarmantes e entristecedores: a cada 23 horas, uma pessoa é morta ou se suicida por questões relacionadas à homofobia no Brasil, de acordo com o Grupo Gay da Bahia (GGB), a associação mais antiga do Brasil quando o assunto é a defesa dos direitos dos homossexuais. Em apenas cinco meses, o ano de 2019 já registrou 141 mortes com essas características no país.

O mercado de trabalho é um espaço essencial da sociedade que continua defasado em inclusão e oportunidades. A orientação sexual de uma pessoa não tem absolutamente nenhum impacto em sua capacidade intelectual, certo? Não deveria, portanto, ser fator determinante na hora de uma promoção. Por que, então, 66% dos profissionais LGBTQI+ acreditam que falar abertamente sobre suas orientações sexual pode, sim, afetar o desenvolvimento da carreira, conforme aponta uma pesquisa do site Love Mondays?

Não é mimimi. O preconceito ainda se manifesta em situações do cotidiano de forma corriqueira, com uma naturalidade que não corresponde ao espírito do nosso tempo. Mais e mais pessoas se deram conta de que aquilo que muitos consideram “piadinha” tem o poder de ferir. A mesma pesquisa da Love Mondays mostra que 35% dos profissionais LGBTQI+ já sofreram discriminação no ambiente corporativo, número que sobe para 40% entre os transsexuais. Se quisermos fazer com que cada indivíduo se sinta acolhido, tenha oportunidades de vagas, promoções e reconhecimento profissional, é preciso mudar o mindset de todos dentro de uma corporação, não só da liderança e do RH.

VAMOS FALAR SOBRE ISSO?

William Pinheiro não é LGBTQI+, mas ao ser contratado pela Dell Technologies decidiu fazer parte do PRIDE, um grupo de funcionários voluntários que se reúne quinzenalmente para discutir caminhos de inclusão dos profissionais LGBTQI+ na empresa e no mercado de trabalho. Três anos depois, ele já é uma das lideranças do movimento. “Quando na companhia, minha gerente mostrou os grupos de diversidade que existiam aqui dentro e perguntou se eu tinha interesse. Escolhi o PRIDE porque não tinha muito conhecimento sobre esta comunidade e queria me educar”, conta o consultor de RH que está saindo do Rio Grande do Sul para trabalhar na unidade paulista da empresa.

A atitude de William é um passo que pode ajudar a acabar com o preconceito: a educação sobre a causa. “Sou privilegiado, pois sou branco e heterossexual. Ocupo espaços que as pessoas LGBTQI+ têm dificuldades de entrar. Ter um aliado nesses ambientes ajuda a quebrar paradigmas. O PRIDE não é só para quem é gay, mas também para quem quer lutar pela causa. Meu irmão é gay, e passei a ser muito melhor para ele depois de todos os meus aprendizados”, diz William. 

A outra líder do grupo PRIDE é Sara Carnio, analista de logística internacional da Dell Technologies. Logo em seu primeiro dia como estagiária da empresa, Sara percebeu a existência de um espaço de inclusão para o público LGBTQI+, do qual se sente parte. “Quando falamos sobre o grupo, me vem à cabeça a palavra orgulho, de estar em um lugar que me abraça. Aqui nunca tive nenhum desconforto de ser quem sou, mostrar meu melhor e vestir a camisa. Me vi em uma empresa com diversidade e inclusão”, diz. 

A dinâmica do grupo é colaborativa. São duas reuniões mensais: uma para discutir a agenda, organizando eventos e encontros, outra para tratar de temas em alta, sugeridos tanto pelos líderes quanto pelos frequentadores. O ambiente inclusivo funciona quase como um convite para as pessoas falarem abertamente sobre sua sexualidade, sem medo de que isso traga consequências negativas para seu plano de carreira. “Trabalho na área de logística, meu time me abraça e tenho um equilíbrio muito grande. Poder mostrar quem sou inspirou outras pessoas a revelarem sua sexualidade. A empresa sabe do respeito e da ética que pregamos. Existem pessoas que dizem que aceitam, e não é verdade, mas nos respeitam. Por aqui a bandeira está sempre erguida”, conta Sara. 

O PRIDE também é um espaço de acolhimento, um ombro amigo para dar forças àqueles que ainda estão com dificuldades de se aceitar ou entender seus sentimentos. “Uma estagiária me falou que estava com medo, que sofria preconceito com ela mesma por ser bissexual. Quando veio conversar comigo, tirou um peso dos ombros”, conta Sara, que além de gay, é adotada e tem um irmão autista. Ela sofreu bullying na escola, época em que as amigas não a entendiam e se afastavam. Mesmo em meio às adversidades, nunca deixou de ser quem é e contou com o apoio incondicional da família. “Cada um tem sua guerra e suas barreiras. A gente está aqui para guiar, quando necessário”, completa. 

IMPACTO DENTRO E FORA

Ter um grupo de discussão sobre as questões da comunidade gay dentro da empresa é um passo importante para o acolhimento de pessoas LGBTQI+, o que acaba criando um interesse extra por vagas na corporação. “Seria ingenuidade dizer que não existem pessoas preconceituosas aqui, mas a companhia se posiciona e lembra em todos os espaços que o preconceito não é aceito”, diz William. A pesquisa da Love Mondays também apurou que 62% das pessoas que são gays não se candidatariam para uma vaga em uma empresa que não os apoia, ao contrário do que acontece na Dell Technologies. “Aqui também existe uma infinidade de pessoas com deficiências, de diferentes raças e etnias. Tenho amigos da minha idade [29 anos] que trabalham em empresas de cultura fechada. Quando compartilho eventos e causas que ajudei, eles falam que gostariam de poder trabalhar aqui”, conta Sara. 

Os numerosos casos de acolhimento do grupo PRIDE vieram acompanhados de muitos ganhos e importantes transformações. Houve uma colaboradora da Dell Technologies, por exemplo, que passou pela transição de gênero enquanto trabalhava na empresa e recebeu suporte da companhia desde a sua decisão. Em 2017, o grupo extrapolou os limites da empresa para criar um programa voluntário dentro do Hospital das Clínicas de Porto Alegre, voltado a aconselhar e capacitar profissionalmente pessoas trans que estavam nesse mesmo momento, de transição. Foram oferecidos treinamentos de RH – de como fazer um currículo, se portar em entrevistas – e os participantes ainda ganharam a oportunidade de se candidatar para vagas da empresa. “Na época, contratamos um homem trans como estagiário. E ele foi efetivado posteriormente”, diz William. 

Como dissemos no início, a orientação sexual, identidade ou expressão de gênero não tem nenhum impacto em sua capacidade intelectual. Acolher e respeitar a diversidade é uma forma não apenas de uma empresa se posicionar a respeito da causa LGBTQI+, como também de enriquecer o ambiente de trabalho e torná-lo mais atual, inovador,  e democrático. Nem todas as companhias acordaram para isso. Que o exemplo da Dell Technologies sirva de inspiração.

*LGBTQI+ = sigla para Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transgêneros, Queers ou Questionadores, Intersexo e demais orientações não-heterossexuais