Entrevista | Em visita ao Brasil, Michael Dell fala a Luis Gonçalves sobre o futuro da tecnologia

Durante o Dell Technologies Forum, em São Paulo, o norte-americano fundador da empresa celebrou os 20 anos de Brasil com o presidente da filial brasileira, revelou os segredos do sucesso da companhia e contou o que avista no horizonte da transformação digital

Foto: Arnaldo Bento Cine

Pouca gente se arrisca a prever o futuro da tecnologia, mas Michael Dell tem suas apostas. E quem melhor que ele para isso? No dia 1º de outubro, em São Paulo, durante a edição brasileira do Dell Technologies Forum – o grande evento anual da empresa –, o fundador da companhia comemorou o 20º aniversário da filial brasileira e, em um bate-papo no palco principal do Transamerica Expo Center, falou do presente, passado e futuro ao presidente da Dell Technologies Brasil, Luis Gonçalves. Ao final, com as perguntas abertas para a plateia, alguns privilegiados tiveram a oportunidade de se dirigir diretamente ao Mr. Dell! Confira.

Luis Gonçalves | O que você acredita que fez a criação da Dell Technologies ser tão exitosa?

Michael Dell |Os clientes nos deram permissão para isso e uma grande responsabilidade. Temos um time fantástico e é o trabalho em equipe que faz o sonho se realizar. Não há sucesso sem uma grande equipe e também temos um conjunto incrível de tecnologias.

Algumas semanas atrás, recebi a lista das principais empresas do mundo que receberam patentes no ano passado. De todas as empresas, não apenas as de tecnologia. Nós subimos do número 18 para o número 12, uma posição muito respeitável na relação. Dentro da Dell Technologies, temos mais de 20 mil engenheiros, cientistas e doutores, e 90% deles são desenvolvedores de software.

O que fizemos foi juntar a Dell, que é número 1 em infraestrutura de hardware, com as soluções de armazenamento e proteção da EMC, com a marca líder inquestionável em virtualização, a VMware. Ao reunir tudo isso, oferecemos data centers definidos por software, com rede, processamento e armazenamento em um ambiente multicloud.

Eu acredito que construímos uma capacidade altamente diferenciada comparada a  qualquer outra empresa. Os clientes confiam em nós e tenho prazer em dizer que, em pouco mais de três anos desde a união [com a EMC], arrecadamos 20 bilhões de dólares em receita. Então, um grande “obrigado” para os nossos clientes e todo o suporte que eles nos deram, mas, apesar de tudo isso ter sido muito emocionante – e eu faço isso há 35 anos –, acredito que é apenas uma pré-estreia do espetáculo principal.

Os próximos 35 anos serão muito mais emocionantes por causa da transformação digital que está ocorrendo, com toda essa quantidade de dados e tudo se tornando inteligentemente conectado. Ainda não vimos nada. Toda a jornada digital  está apenas começando e eu não poderia estar mais animado com o futuro.

Luis Gonçalves | Isso é incrível. Parece que estamos entregando algo muito valioso para nossos clientes. E quais são os imperativos para a transformação digital?

Michael Dell | Algo que precisamos reconhecer quando falamos em transformação digital é o seu  chamado lado sombrio. Eu diria que há um pouco de receio em relação a isso, no sentido de que tudo está mudando rapidamente. Como adaptamos nossos negócios? Esse é mais ou menos o ponto de partida, porque quando você pensa em todas essas tecnologias – 5G, cloud, AI [Inteligência Artificial], IoT [Internet das Coisas] – e em todos esses novos recursos, como Machine Learning, você realmente precisa dar um passo atrás e reimaginar sua empresa, seu governo, sua escola, seu hospital… Você precisa pensar “OK, com todas essas tecnologias se tornando disponíveis, como podemos usar isso para melhorar nossos resultados?”.

Eu acho que, com tantas startups no Brasil – ouvi dizer que existem 10 mil –, muitas grandes empresas ficam frustradas e dizem “Espere um segundo: temos muitos funcionários, muito capital, muitos recursos, mas somos muito lentos com mudanças. As novas startups surgem e não têm muitas pessoas, não têm tanto capital, mas são muito rápidas. Por quê?”. Eu acredito que muito tem a ver com o uso do desenvolvimento ágil de software e, obviamente, com o fato de que as startups não têm um legado que precisam preservar.

Mas ficar olhando o ritmo das mudanças no mundo não vai desacelerar o processo. Se estivermos participando do Dell Technologies Forum em São Paulo em três anos, não vamos dizer “Bom, o ritmo da tecnologia mudou, a velocidade diminuiu”. Não, ele será cada vez mais rápido, então todos nós temos que repensar nossos negócios continuamente e, se você já tem muitos dados agora, deve repensar mais cedo ainda.

Se você possui dados e não usa Inteligência Artificial e Machine Learning, e usa software para reforçar sua vantagem competitiva, você está fazendo errado. Isso vai ser mais concreto no futuro. Se você acha que tem muitos dados agora, terá mil vezes mais em cinco anos.

Luis Gonçalves | Você tocou em um ponto muito sensível sobre ser otimista ao olhar para a tecnologia no futuro. Nós estamos totalmente otimistas sobre o desempenho da tecnologia no futuro.

Michael Dell | A transformação não deve ser um projeto de TI [Tecnologia da Informação]. Ela deve se relacionar diretamente a como nossa empresa está se redefinindo em termos de estratégia.

A linha de negócios, os executivos, o presidente, o diretor administrativo e o conselho da empresa precisam entender como a empresa está evoluindo. A transformação não pode vir apenas da TI, que é um universo muito grande, mas deve ser impulsionada pela estratégia da empresa.

Quanto ao otimismo, ser otimista é uma maneira melhor de viver a vida. Você é muito mais feliz. Se você der um passo para trás e olhar para as previsões da tecnologia em Hollywood, todos são filmes horríveis sobre o robô exterminador. Os autores também escrevem há muito tempo histórias horríveis envolvendo a tecnologia. Não estou dizendo que não há acontecimentos ruins na tecnologia. Qualquer um pode fazer algo ruim com qualquer ferramenta. A Inteligência Artificial não acorda uma manhã e diz “hoje eu vou ser bom ou ruim”. Isso é determinado por nós, humanos. Temos que garantir que a tecnologia reflita nossos valores, nossas crenças e nossa humanidade. Essa é nossa responsabilidade, mas sempre há aquela pessoa que está fazendo algo que não deveria ser feito.

Luis Gonçalves | Então, não vamos usar a tecnologia para nossa própria causa, certo?

Michael Dell | A tecnologia está apenas seguindo nossas ordens. Acho que não podemos desacelerar de forma alguma, precisamos enquadrá-la e colocar todos esses dados em funcionamento para estimular o progresso no mundo. Estou muito otimista de que, de certa forma, será uma força muito maior para o bem do que para o mal.

Foto: Arnaldo Bento Cine

Plateia | Algo mudou na estratégia da Dell Technologies ao torná-la pública novamente?

Michael Dell | Eu diria que não. Como alguns de vocês devem saber, em 2013 nós fechamos o capital e, no final do ano passado, abrimos novamente, juntando duas empresas. As ações incomuns de rastreamento da Dell Technologies[t1] [l2] , criadas quando compramos a EMC e a VMware, conseguiram alinhar a participação de todos os acionistas. Eu diria que, a partir do momento em que fechamos o capital, mudamos o horizonte de tempo que imaginávamos para a empresa: mais médio e longo prazo. Continuamos fazendo investimentos de longo prazo, mesmo sendo uma empresa aberta novamente, mas temos uma estrutura de controle um pouco diferente, o que nos dá mais flexibilidade para pensar no negócio a longo prazo. Temos dois acionistas que controlam mais de 90% dos votos da empresa e eu controlo a maioria, então é bom. Isso nos permite não ficar tão obcecados com o curto prazo. Tive uma ótima reunião esta manhã com a equipe no Brasil e da América Latina, que administra nossos negócios, e estamos fazendo muitos investimentos. Se estivéssemos otimizando apenas para um período muito curto, não faríamos esses investimentos. Não é isso que estamos fazendo.

Estamos pensando em três, cinco, dez, vinte anos. Hoje estamos aqui no 20º aniversário da Dell no Brasil e quando celebrarmos o 30º e o 40º queremos fazer ainda mais pelos nossos clientes. Então, estamos realizando todos esses investimentos agora e administrando a empresa como fizemos quando era uma empresa privada.

Plateia | Com tantas tecnologias que mencionamos aqui, várias delas disruptivas, qual é a maior oportunidade para a tecnologia no futuro?

Michael Dell | O que sei sobre o futuro é que é muito difícil de prever. Se você olhar para a história e as pessoas que tentaram prever o futuro, elas quase sempre estavam erradas. Por que seria diferente para mim? Ainda acho que dá para fazer algumas apostas. Não são apenas nossos 20 mil engenheiros, cientistas e doutores que estão desenvolvendo produtos. Temos literalmente bilhões de interações com os clientes todos os anos e agora as máquinas estão nos respondendo.

Estamos incorporando Machine Learning aos produtos e eles estão se configurando automaticamente. Estamos nos tornando mais inteligentes, assim como nossos produtos, porque estão se adaptando ao volume de trabalho. Acho que a Inteligência Artificial será um elemento importante.

Outra novidade é a chamada Dell Technologies Capital, que é uma entidade que investe em novas empresas de todos os tipos. Não estamos investindo em serviços de passear com cães, empresas de patinetes ou algo que não tem nada a ver com o nosso negócio. Para nós, é sobre inteligência artificial, segurança, 5G, virtualização – tudo o que cruza com o nosso caminho de crescimento. Se você pesquisar por Dell Technologies na internet, verá que investimos em uma empresa toda semana e muitas delas são novas e inovadoras. Algumas delas serão muito bem-sucedidas, outras serão adquiridas por nós ou outras companhias e algumas delas irão fracassar. É isso que acontece. Mas aprendemos muito com elas e com nossos clientes inovando.

O outro fato sobre a tecnologia é que, à medida que o 5G é desenvolvido, haverá vários tipos de inovações nos modelos de negócios baseados na tecnologia e que não são de fato inovações tecnológicas. Isso será fantástico.

No entanto, não acho que alguém tenha uma bola de cristal, mas o melhor a se fazer é abrir os ouvidos e ouvir tudo, principalmente o que os nossos clientes estão dizendo. Eu comecei a empresa há 35 anos no meu dormitório na Universidade do Texas e como foi que chegamos de lá a São Paulo, 35 anos mais tarde? Ouvindo. É assim que resolvemos os problemas não resolvidos do futuro. Esse é o nosso trabalho e, a propósito, nós o amamos.