Conexão Divina

Em tempos de quarentena, a tecnologia leva os rituais para dentro das casas: missas e cultos transmitidos ao vivo pelas redes sociais e rituais compartilhados em grupos de WhatsApp ajudam a manter a vida espiritual durante o isolamento social.

27 de março de 2020. A praça de São Pedro, no Vaticano, está vazia. Sozinho no cenário, o Papa Francisco concede a indulgência plenária – o perdão de todos os pecados – a fiéis de todo o planeta durante a pandemia de Covid-19. A cena foi transmitida ao vivo pela internet.

O ritual teve outro momento inédito na história da Igreja Católica: a bênção “Urbi et Orbi” – “à cidade e ao mundo”, normalmente rezada nas missas de Natal e domingo de Páscoa – foi orada de maneira extraordinária por conta da crise global do novo coronavírus. A transmissão ao vivo alcançou milhões de pessoas ao redor do mundo pela Internet, entre visualizações nos canais da rede Vatican News no Youtube e demais redes sociais do Vaticano.

Rituais religiosos têm sido transmitidos pela internet com frequência nos últimos anos – como as missas do Padre Marcelo Rossi e os cultos da igreja neopentecostal brasileira Bola de Neve Church. No atual cenário de quarentena, porém,  a possibilidade de qualquer cristão frequentar a “Casa de Deus” forçou as igrejas a entrar nas casas  em novo formato: assim como os shows e espetáculos da Era da Quarentena, as lives são o grande recurso das religiões para alcançar os fiéis.

Para se ter ideia, de acordo com o Google, as visualizações de vídeos sobre religião no Youtube aumentaram 466% em março em relação ao ano anterior.

 

Missa a um clique

O templo é o local onde, tradicionalmente, pessoas da mesma religião ou espiritualidade se encontram para participar de rituais e, assim, manterem o contato com sua fé e com a comunidade.

Para o Padre Lédio Milanez, Pároco da Paróquia Nossa Senhora Aparecida, em Curitiba, a tecnologia serve como meio para manter a unidade celebrativa dos fiéis durante a quarentena. “Celebrar é próprio do cristão – celebrávamos a fé em grupos nas casas antes da fundação da igreja como templo. Neste momento, a tecnologia resgata uma dimensão importante da fé católica: o culto nos lares feito pelas famílias no início do cristianismo”, explica Milanez.

Desde o início da quarentena, o Padre tem celebrado as missas para os fiéis em transmissões ao vivo na página da Paróquia no Facebook e no perfil do Instagram. De acordo com o pároco, as lives chegam a alcançar até 1500 pessoas.

O meio é a mensagem

Há rituais que precisam de um grupo reunido no mesmo local como parte de seus fundamentos, como as sessões espíritas no Kardecismo e as giras de Umbanda. Nestes cultos, os médiuns incorporam espíritos para fazer os atendimentos e dar um passe aos frequentadores do templo, ou “casa”. Para seguir com as sessões durante a quarentena, adaptações são necessárias.

“Não existe gira de um homem só”, diz Walter Antônio Lúcio dos Santos, sacerdote da Casa de Umbanda Tupã Óca Caboclo Estrela Dourada, localizada na zona norte de São Paulo. Pai Walter, como é mais conhecido, reformulou a tradicional gira de Umbanda para um formato possível durante o isolamento social. Com a ajuda de um sobrinho, o sinal de internet e um Smartphone, o sacerdote faz transmissões ao vivo diretamente do templo para um grupo de frequentadores da Casa no Facebook.

Nas lives, em vez da corrente mediúnica humana das sessões presenciais, somente Pai Walter está entre altares e imagens – Jesus Cristo e entidades da Umbanda, como caboclos e pretos velhos. O sacerdote defuma o espaço e inicia a transmissão com uma prece. As sessões remotas chegam a reunir 300 espectadores. “As transmissões online permitem que eu mantenha os frequentadores de nosso templo conectados com a Casa, mantêm a comunidade em contato virtualmente. Substituí o atendimento por muitas orações e orientações para este momento de pandemia”, explica.

A experiência tem inspirado o sacerdote: ele pretende seguir com as transmissões online no futuro, mas oferecendo vídeo-aulas sobre mediunidade. “Eu vejo com bons olhos o uso da tecnologia neste momento: ela é o meio pelo qual as mensagens do mundo espiritual chegam aos filhos da casa”, diz Walter.

Deusa Sekhmet entrou no grupo

Nem só de lives vive a fé no isolamento social. Há grupos no WhatsApp para novenas católicas, orações de círculos evangélicos e outros focados em rituais neopagãos. Os integrantes de cada grupo trocam informações entre si e podem receber e um tipo de delivery espiritual, que permite a condução do culto em casa pelo próprio participante, orientado pelos moderadores.

Um exemplo é o grupo de WhatsApp criado pela organização sem fins lucrativos Kemetismo Brasil, que propõe o resgate de antigas tradições egípcias: nele, os participantes recebem instruções sobre como realizar um ritual em casa para Sekhmet, divindade patrona da medicina no Antigo Egito. “Adaptamos o ritual para ser feito sem dificuldades e com segurança por qualquer pessoa em sua casa, com acessórios e utensílios simples em dia e horário específicos” conta Pablo Al Masrii, um dos coordenadores do Kemetismo Brasil.

Retiro no próprio quarto

A tecnologia também pode ajudar a fazer um retiro sem você sair de casa. A estudante Priscila Costa viveu esta experiência recentemente: mora na Índia, onde cursa o seu mestrado em Economia na Universidade de Bangalore. Chegou ao Brasil para o casamento da irmã no início de março. Logo em seguida, a Organização Mundial da Saúde (OMS) decretou a pandemia de Covid-19, os aeroportos indianos foram fechados e a estudante permaneceu em quarentena no Brasil.

Adepta do Budismo Kadampa, Priscila buscou por soluções online para manter as práticas em dia e controlar a ansiedade durante a quarentena. Faz meditações conduzidas por grupos budistas via Zoom diariamente, às seis horas da manhã, além das práticas de Yoga online com a sua professora na Índia. A estudante também participou de um retiro de três dias conduzido por um monge budista via Youtube – sem sair de casa. “Foi uma experiência incrível. Eu não teria a chance de viver momentos como este na quarentena se não fosse pelas ferramentas que temos hoje. O retiro começava com uma prece e uma meditação de manhã. Passava o dia em silêncio, e três vezes por dia o monge conduzia uma oração, com algumas pausas para os participantes refletirem sobre o sentidos das preces. No final do dia abriam para perguntas de todos”, conta Priscila.

Sinal potente com o espiritual

Se os povos antigos precisavam se reunir ao redor do fogo para iniciar suas práticas espirituais, hoje basta um bom pacote de dados em casa. Pablo Al Masrii garante que as ferramentas tecnológicas não atrapalham a energia dos rituais propostos pelo grupo no WhatsApp: “No Kemetismo, a tecnologia é o proprio Thoth (divindade egípcia da escrita, matemática e dos conhecimentos científicos); é uma ferramenta potente neste momento. Se fizermos um ritual via live, conseguiremos reunir um grupo grande de pessoas do mundo inteiro. E a comunidade é um dos pilares do Kemetismo.”

Padre Lédio e Pai Walter concordam que a tecnologia é abençoada. “As ferramentas que usamos para transmitir as missas e as mensagens são frutos da inteligência humana, e esta inteligência tem origem na força que move o Universo: Deus”, diz o padre. “Deus deu à humanidade inteligência e liberdade para criar. A inteligência criou a tecnologia que usamos hoje, e se a usamos para o bem, então é uma obra divina”, explica o sacerdote umbandista.

E você? O que faz para manter sua fé neste período de quarentena? Queremos saber!
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