Como um app pode mudar o trabalho de pessoas com deficiência auditiva

A Dell Technologies incluiu em sua linha de produção uma tecnologia que traduz sons em imagens, habilitando os funcionários com deficiência auditiva a realizar mais uma função. Veja como o aplicativo MAIA está mudando o trabalho dos colaboradores

A Dell Technologies atua decisivamente na integração dos colaboradores com deficiência em todos os seus processos. Na fábrica de Hortolândia, em São Paulo, 14% são pessoas com deficiência (PcD) e o LEAD (Centro de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação da Dell Technologies) trabalha continuamente para implementar tecnologias que melhorem o desempenho e as possibilidades desses profissionais. 

Entre março e abril de 2019, o sistema MAIA (Mobile Aware Intermodal Assistant) chegou à linha de produção para transformar o dia a dia dos cerca de 50 funcionários com deficiência auditiva.

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Na linha de produção, um dos processos consiste em verificar o funcionamento integral dos notebooks – o famoso “controle de qualidade” – para que eles sejam entregues em perfeito estado para o cliente. São realizados testes no teclado, na tela e nos speakers de som. Se, no entanto, o responsável por avaliar esse último recurso fosse um funcionário com deficiência auditiva, essa etapa não poderia ser executada por ele. A situação mudou com a instalação do aplicativo MAIA.

Colocados nos postos de trabalho em que o teste dos speakers é realizado, os tablets com MAIA captam os sinais sonoros dos notebooks, então detectam, por meio de um algoritmo, o que são cada um deles (no teste, as palavras “um”, “dois” ou “três”), e transformam o som na imagem correspondente: 1, 2 ou 3. Dessa forma, a pessoa com deficiência auditiva saberá que o som está sendo emitido corretamente, podendo aprovar o teste. 

“Você tinha um funcionário com deficiência auditiva na linha de teste que conseguia fazer tudo, exceto testar a caixa de som. Quando esse momento chegava, ele tinha que parar o que estava fazendo para chamar outro funcionário para realizar essa verificação”, explica Robson Sampaio, líder do projeto MAIA e integrante do grupo LEAD, que conta com a parceria da Universidade Estadual do Ceará e está baseado em Fortaleza (CE). “Esse contratempo na linha de produção gerava um gargalo na parte de testes, o que não acontece mais”, diz Robson.

Foto: Dell Technologies

A implementação do sistema MAIA

Tudo começou quando integrantes do LEAD visitaram a fábrica de Hortolândia para avaliar a rotina das PcDs. In loco, puderam notar os pontos que afetavam a produtividade e a rotina profissional dessas pessoas. “O LEAD queria resolver o problema de inclusão. Para isso, o grupo identificou alguns postos de trabalho que os funcionários com deficiência não conseguiam operar”, explica Felipe Goulart, engenheiro de testes da fábrica. 

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Surgiu, então, a ideia de criar o MAIA, entre outras tecnologias ainda em produção. O primeiro passo do desenvolvimento do projeto, iniciado em janeiro de 2018, foi “ensinar” o aplicativo a identificar os sons que precisaria distinguir. Depois de ficar operacional, em novembro do mesmo ano, o aplicativo entrou em fase de testes na linha de produção por três meses, até janeiro de 2019, sendo supervisionado por uma câmera. 

Assim que o MAIA foi instalado nos tablets da fábrica, as pessoas com deficiência auditiva receberam um treinamento para utilizá-lo corretamente. “O funcionamento do aplicativo é bem simples, exatamente para o operador não ter nenhuma complicação ao manuseá-lo”, explica Robson, o líder do projeto. 

“O treinamento do sistema foi super-rápido. Nós recebemos uma versão inicial do aplicativo já totalmente funcional, chamamos algumas pessoas com deficiência para testá-lo e foi intuitivo”, conta Felipe, o engenheiro de testes da fábrica. “Basta o usuário iniciar o teste de som, olhar para a tela do tablet e responder no notebook o número que foi mostrado.”

O MAIA na rotina das PcDs

Atualmente, há três tablets com o aplicativo MAIA instalados na fábrica. Apesar de existirem 20 linhas de produção na unidade e haver uma demanda de dois tablets para cada uma, os equipamentos disponíveis são portáteis e podem funcionar em diferentes locais. A ideia, no entanto, é expandir o uso do sistema. Para isso, a Dell Technologies implantará outros cinco tablets e habilitará novos postos. 

Com tanto ainda por vir, pode-se dizer que a implementação do MAIA está no começo, mas já transformou a vida de pessoas com deficiência auditiva na fábrica. Rodrigo Modesto, que trabalha na empresa há 7 anos, foi o primeiro a utilizar o aplicativo na linha de produção. “Ficamos surpresos com a novidade. Todos os funcionários com deficiência auditiva se reuniram no almoço e ficaram falando sobre o MAIA”, conta Rodrigo, por meio de Milaine Ribeiro, intérprete de Libras das PcDs da Dell Technologies há 12 anos. “Antes dependíamos de outra pessoa para realizar o teste, agora temos autonomia. Poder fazer sozinho é muito mais legal.”

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Rodrigo Modesto na fábrica da Dell Technologies / Foto: Dell Technologies

“A felicidade deles quando o MAIA chegou à fábrica foi inacreditável. Eles olharam para a gente com os olhos brilhando”, reforça Robson. “Notei muita gratidão por parte deles. No MAIA, a pessoa consegue executar o processo do início, e deu para ver que eles ficaram muito mais tranquilos com isso”, concorda Felipe. 

Próximos passos

Em janeiro de 2020, ficará pronta uma nova versão do sistema na qual o funcionário (não só com deficiência) poderá fazer uma chamada via rádio para outra pessoa da fábrica. “Eu, como sou da engenharia de testes, carrego um rádio no canal 15. Qualquer um que estiver num tablet poderá navegar no menu, selecionar ‘engenharia de testes’ e fazer uma chamada de voz pelo rádio dizendo que determinada linha de produção precisa da minha ajuda”, explica Felipe.

Já as pessoas com deficiência auditiva poderão navegar e chamar quem precisarem pelos ícones do menu. Então, do outro lado, o receptor responderá se pode ou não atender o chamado. De volta ao operador, no tablet, essa resposta mudará a cor do ícone para verde, em caso positivo, ou vermelho, em caso negativo. “A ideia é que o MAIA continue crescendo bastante e acabe com a barreira de comunicação na fábrica de Hortolândia”, projeta Robson.

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