A internet que muita gente não vê

Segundo o movimento Web Para Todos, apenas 1% dos sites brasileiros é acessível a pessoas com deficiência visual, auditiva ou intelectual. Em tempos de isolamento social e home office obrigatório, a falta de acessibilidade digital deixa de lado ainda mais quem já se sente excluído

Até outro dia, não era difícil encontrar em cafés e restaurantes avisos engraçadinhos do tipo: “Não temos wi-fi, conversem”. O tempo passou, os pacotes de dados ficaram maiores, diminuindo a dependência do roteador, e as pessoas aprenderam a moderar o uso do celular à mesa. O que ninguém imaginava é que um dia, ironicamente, as conversas seriam impedidas de acontecer nos bares, cafés e restaurantes, restringindo-se ao wi-fi de nossas casas. Em tempos de novo coronavírus, não há quem não esteja ligado ao sinal de internet para falar com os amigos, rever a família, trabalhar, ler notícias, fazer compras, pagar contas…. Mas não é todo mundo que consegue se beneficiar da gama de recursos trazida pela conectividade.

De acordo com o IBGE, o Brasil tem cerca de 12,5 milhões de pessoas com deficiência, o que representa 6,7% da população. E a internet está longe de atender esse público. “Fizemos um estudo no final de 2019 com a W3C [principal consórcio de padronização da web] e a Big Data, uma startup que estuda dados, e varremos os 14 milhões de sites ativos no Brasil. Criamos um robô para simular a experiência de navegação. Menos de 1% passou no teste de acessibilidade. Com isso, podemos afirmar que a internet brasileira não está, de jeito nenhum, preparada para receber a visita de pessoas com deficiência”, diz Simone Freire, idealizadora do movimento Web Para Todos.

Em época de quarentena, essa restrição de acesso é ainda mais preocupante. Ao não conseguir navegar de forma apropriada, o deficiente pode ser forçado, por exemplo, a sair de casa – e se expor ao vírus – para realizar uma tarefa simples. Nem mesmo o aplicativo desenvolvido pelo Ministério da Saúde sobre coronavírus escapa da estatística. Logo no lançamento, os cegos perceberam que o app não era acessível. Por isso, eles tinham dificuldades de obter informações básicas sobre como se prevenir da doença que está paralisando o mundo.

Não é por falta de legislação que as pessoas com deficiências ainda são obrigadas a enfrentar esses obstáculos. Existem normas para tornar as páginas navegáveis a todos que têm algum tipo de deficiência – visual, auditiva ou intelectual. A Lei Brasileira de Inclusão, que ficou 12 anos tramitando no Congresso Nacional, entrou em vigor em janeiro de 2016. Seu artigo 63 diz: “É obrigatória a acessibilidade nos sítios da internet mantidos por empresas com sede ou representação comercial no país ou por órgãos de governo, para uso da pessoa com deficiência, garantindo-lhe acesso às informações disponíveis, conforme as melhores práticas e diretrizes de acessibilidade adotadas internacionalmente”. Para que a questão legal seja mais divulgada, a criadora do Web Para Todos defende uma maior participação justamente de quem sofre com a falta de acessibilidade. “É necessário empoderar quem tem deficiência para que falem sobre seus direitos e as leis que têm a seu favor”, diz.

Simone afirma ainda que é necessário dar um passo atrás e educar aqueles que pensam o esqueleto dos sites: os programadores. “A informação e a lei já existem, o que falta é conhecimento para os desenvolvedores digitais considerarem essas regras”, diz. Essa percepção é compartilhada pelo engenheiro da computação David Reck, CEO da Reamp, empresa especializada em marketing programático. “Quando a gente investe nos profissionais do futuro, o cenário muda. A conscientização da base forma uma geração com visão diferente. Mas é também um trabalho técnico, que requer conhecimento complementar para projetar essas funcionalidades”, avalia.

FALTA DE ACESSIBILIDADE É RUIM PARA TODO MUNDO

Para quem tem e-commerce, uma informação importante: existe um nicho imenso de brasileiros que não conseguem comprar no seu site, ler seus textos, compartilhar seus conteúdos ou pedir no seu delivery simplesmente porque sua plataforma não é inclusiva. “Existe uma oportunidade de crescimento de vendas. Tornar um site inclusivo não é assistencialismo. As marcas que entenderem que existe uma boa parcela da população que ainda não foi atendida digitalmente vão ampliar muito seus negócios. Há uma demanda reprimida”, diz Simone, reforçando a importância desses recursos no momento atual. “Em uma época como agora, em que as pessoas estão isoladas e precisam comprar fazendo uso dessas tecnologias, como estão os brasileiros com deficiência?”, questiona a especialista.

E nem tudo é trabalho de programador. O simples uso de texto para descrever uma imagem postada do Instagram, por exemplo, fará toda a diferença para o cego que encontrá-la na rede social. Mas não basta sair legendando, há uma técnica. “Existem empresas que começaram a fazer descrições de fotos pegando carona nessa vibe e tiveram um feedback ruim do público. Uma rede de fast food, por exemplo, descrevia imagens dizendo: ‘Um prato quentinho saindo do fogo. Não vejo a hora de comer’”, lembra Simone, da Web Para Todos. Contar o que está numa foto para um deficiente visual requer detalhamento dos diferentes elementos visuais e da composição da imagem, e não o testemunho de sensações e impressões com uso de figuras de linguagem. O palavreado solto e coloquial, comum na internet, nem sempre comunica de forma eficaz aos cegos.

Uma curiosidade, então: será que aquela campanha publicitária que você viu nas redes sociais – e amou – é inclusiva? Provavelmente não. Esse é um desafio para quem trabalha com comunicação e marketing, áreas que ainda engatinham no caminho da acessibilidade. “Se olharmos o que já existe de potencial, de projeto de lei, de legislação em vigor, não dá para tirar o mérito: o ambiente digital está melhor do que no passado, principalmente nos grandes sites de serviços essenciais ligados ao governo. Mas como um todo, estamos muito aquém do que poderíamos”, diz David, da empresa de marketing Reamp.

 

ACESSIBILIDADE NA INTERNET: A EVOLUÇÃO ESTÁ A CAMINHO

Ser uma empresa inclusiva é uma das preocupações da Dell Technologies. E isso engloba pensar em soluções para todos os tipos de pessoas com deficiência. “Buscamos que nossos colaboradores com deficiência estejam sempre integrados e produzindo, como todos os outros funcionários”, diz Eder Soares, gerente de Projetos de Inovação e líder do LEAD – Centro de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação da Dell Technologies. Em tempos de home office forçado, a empresa utiliza a ferramenta Wal (Website Accessibility Layer), que a própria Dell Technologies desenvolveu, que é uma ferramenta que oferece recursos de acessibilidade destinados à pessoas com deficiência visual, que realiza adaptações e insere esses recursos em páginas da web, no momento da utilização. Os recursos desenvolvidos auxiliam usuários com deficiência visual de vários níveis e tipos, dentre eles: pessoas com daltonismo; glaucoma; catarata; disléxicos e pessoas com dificuldade de leitura devido ao cansaço e processo natural de envelhecimento.

Em forma de plugin (e muito fácil de ser instalado nos navegadores), o Wal transforma a maneira como esses funcionários leem páginas na web e usam as ferramentas de trabalho diário, como o Salesforce. “Existem diversas limitações na internet. O Wal é uma camada que fica sobreposta aos sites e os torna acessíveis, permitindo aumentar a letra, o espaçamento entre as linhas, alterar a fonte para deixá-la sem serifa [que pode atrapalhar a leitura de quem tem dislexia], mudar o contraste ou a cor para a pessoa que tem daltonia…”, explica Eder. A novidade surgiu dentro do LEAD,, formado por funcionários da empresa e pesquisadores da Universidade Estadual do Ceará. Ainda sem previsão para chegar ao mercado, o Wal, pelo menos por enquanto, é um privilégio exclusivo dos colaboradores da Dell.

O Wal alcança resultados porque é desenvolvido de acordo com as necessidades de seus usuários. Um time com 44 de pessoas com deficiência do LEAD testa o plugin e dá seus feedbacks às equipes desenvolvedoras. “Existe um padrão internacional de acessibilidade na web que é nossa base para tudo. Seguimos essa cartilha e acrescentamos os requisitos que surgem da própria experiência de quem testa”, diz Eder. A ferramenta já está disponível em diversos países da América Latina, como Brasil, Chile, Argentina, Peru, Colômbia, Panamá, Costa Rica e México.

Na prática, o Wal já mudou a vida de um colaborador da Dell Technologies com glaucoma severo, no Panamá. “A ferramenta que ele usava para ajudá-lo na leitura não era compatível com o Salesforce, o que o impedia de fazer seu trabalho de maneira remota. Com a ajuda do Wal, ele passou a fazer home office dois dias por semana, como o resto da equipe”, conta Monique Lezcano, responsável por um projeto de inclusão da Dell Technologies na América Latina e parte do grupo True Ability, que empodera pessoas com deficiência. Um dos feedbacks de aperfeiçoamento dados pelo funcionário foi o de aumentar o tamanho do cursor, que antes aparecia muito pequeno na tela.

No final, não foi apenas a produtividade do colaborador que foi impactada pela ferramenta. Seu emprego também. Tempos depois, o escritório físico da Dell Technologies no Panamá foi fechado, e todos os funcionários passaram a trabalhar de maneira remota. “Se não fosse pelo Wal, não seria possível esse colaborador continuar na equipe”, completa Monique.