Situações que envolvem Inteligência Artificial sem notarmos

Mostrada na ficção muito mais como uma ameaça do que uma salvação, a Inteligência Artificial invadiu nosso cotidiano por uma simples virtude: sua enorme utilidade. Se você ainda não se deu conta disso, veja como essa tecnologia deixou a vida mais eficiente

O termo “Inteligência Artificial” parece futurístico, mas foi no muito distante ano de 1956 que apareceu pela primeira vez. No evento “Dartmouth Summer Research Project on Artificial Intelligence”, apresentado pelos cientistas americanos John McCarthy e Marvin Minsky, o tema dominou o debate entre os pesquisadores convidados. Mais de meio século depois, em 2012, o conceito finalmente chegou às máquinas, fazendo-as “pensarem por si”.

Mas o que de fato é essa tecnologia? “Inteligência Artificial é um termo muito amplo, mas quando nos referimos ao aprendizado de máquina, é necessário que exista um padrão e dados por meio dos quais este aprendizado será realizado”, explica Ana Oliveira, diretora do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento da Dell Technologies, no Rio de Janeiro. Este aprendizado a partir de grandes volumes de dados – o famoso Big Data – cria uma espécie de “raciocínio”, capaz de tomar decisões de forma independente, desde que a máquina tenha sido programada para isso.

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Inteligência artificial facilita a vida

A inteligência artificial é um campo vasto e não engloba apenas uma tecnologia. As redes neurais, por exemplo, são sistemas de computação que funcionam como o cérebro humano. Outra variante de desenvolvimento é o machine learning (ou aprendizado das máquinas), um processo em que o computador modifica suas ações de forma autônoma com base na experiência adquirida (ou seja, no acúmulo de dados). O deep learning, por sua vez, é um tipo de machine learning que utiliza as redes neurais de muitas camadas. Como resultado, os equipamentos são “treinados” a aprender a realização de tarefas sozinhos, tais quais os seres humanos.

Apesar de se basear na lógica humana, a inteligência artificial é bem diferente daquilo que se vê nos filmes. Segundo Dora Kaufman, pesquisadora de Inteligência Artificial e professora do TIDD (Tecnologias da Inteligência e Design Digital) da PUC-SP, o cinema pode até antecipar tendências, mas não há indícios científicos de que existirá uma inteligência tecnológica com a autonomia humana, com vontades próprias. “É só ficção científica. Os filmes colocam medo no lugar errado”, afirma.

Foi nas telas que se disseminou o mito de que “as máquinas ainda vão nos matar”, uma desconfiança que anda de mãos dadas com o medo da substituição do homem pela automação, com a consequente extinção de empregos. “Toda geração que vive uma grande transição tecnológica se sentirá insegura, pois não sabe precisamente como será o futuro”, diz Ana Oliveira, da Dell. “Eu acredito que os trabalhos vão se transformar. As pessoas terão as atividades simplificadas pelo uso da tecnologia e a tendência é que a vida fique muito mais fácil”.

Hoje, já é fácil perceber os impactos positivos da inteligência artificial no cotidiano. A personalização de produtos e serviços proporcionada por essa tecnologia vem se expandindo para as mais diversas áreas, fruto do enorme volume de dados coletado dentro do conceito de Big Data. “A possibilidade de extrair informação dessa base descomunal de dados está sendo uma revolução no funcionamento de quase todos os setores da economia e da sociedade”, afirma Dora, a pesquisadora de IA.

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9 exemplos de Inteligência Artificial que já estão rolando

Veja a seguir algumas das mais úteis aplicações da inteligência artificial em plataformas, produtos e serviços que fazem uso estratégico dessa tecnologia:

1. Quando o streaming de vídeo “sabe” do que você vai gostar

De acordo com a pesquisa do IBGE de dezembro de 2018, 81,8% dos brasileiros que estão conectados usam internet para assistir filmes, vídeos, programas e séries. Isso, graças às plataformas de streaming que conseguem personalizar as contas de todos os seus usuários. Como? Com inteligência artificial.

Usando a tecnologia de deep learning, elas correlacionam dados de recorrência de uso do assinante, como gênero, tema, ano e origem das produções, além de atores e diretores, para estimar um percentual de quanto cada título pode interessar àquele assinante e permitir que aconteça um match com ele.

Assim, muitos dos filmes e séries que aparecem na sua home do streaming são o resultado da compatibilidade com o seu perfil. “Essa personalização não é individualização. Por meio da movimentação dos usuários, encaixa-se as pessoas em grupos”, explica Dora Kaufman, a pesquisadora de inteligência artificial.

2. Quando o streaming de áudio sugere uma banda que você vai curtir

Como os streamings de vídeo, as plataformas de áudio utilizam a inteligência artificial para relacionar os dados dos usuários com o conteúdo que oferece. No serviço, são apresentadas as músicas e podcasts mais compatíveis com cada pessoa, com o objetivo de proporcionar a melhor e mais certeira experiência possível. Como essa tecnologia é baseada em probabilidade, o usuário pode receber sugestões de bandas e músicos que costumam agradar aos perfis com gostos parecidos com os dele, mas que não necessariamente o assinante já tenha ouvido falar. Essa é uma oportunidade para expandir seu repertório e conhecer (e curtir) novos sons.

3. Quando as redes sociais comparam preços para você

Em algumas redes sociais, a mais notória função da inteligência artificial é adaptar o feed de notícias de cada usuário ao perfil da pessoa. Outro uso consagrado da IA nas páginas pode ser visto nos anúncios hipersegmentados, que refinam ainda mais os interesses do público. Se você fizer a cotação de um produto em sites de e-commerce e tiver o hábito de frequentar as redes, fique tranquilo que o produto aparecerá com os preços atualizados dos sites em todas as suas próximas visitas ao seu feed.

4. Quando os tradutores virtuais salvam a sua vida no trabalho

Quantas vezes o “Translator” (como também é conhecido) traduziu uma palavra ou frase de uma maneira que não fazia nenhum sentido? Pois você deve ter notado, também, que esse serviço melhorou muito de alguns anos para cá.

Em 2016, um dos tradutores mais famosos da internet anunciou que tinha começado a utilizar deep learning em seu programa de tradução. Dentre os 103 idiomas disponíveis na plataforma, os pesquisadores treinaram várias traduções entre pares de línguas (português e inglês, português e espanhol etc), o que possibilitou uma compreensão da relação entre elas. A inteligência artificial aumentou seu repertório, passou a “entender” melhor os significados dos termos dentro de contextos, e as traduções começaram a exibir menos erros.

Ainda assim, a tradução final precisa ser revisada e, quase sempre, corrigida. “Seria um equívoco usar diretamente os resultados”, alerta Dora Kaufman, da PUC-SP. “Em qualquer um desses serviços a relação é de probabilidade. Tem margem de erro.”

5. Quando um robô resolve seu problema por chat

A realidade do filme “Ela” (2013), dirigido por Spike Jonze, parece cada vez mais próxima. Tarefas ou questões podem ser resolvidas a partir de comandos de voz que ativam softwares. São os “assistentes virtuais”. Logo as empresas de varejo perceberam que também poderiam se beneficiar das assistentes virtuais para falar com o público, e começaram a criar suas próprias versões de atendentes digitais.

6. Quando seu celular é desbloqueado por meio da câmera

Desde desbloquear celulares até ajudar a localizar criminosos, o reconhecimento facial tem funções variadas na área de segurança digital. A tecnologia, possibilitada por deep learning, é baseada em um sistema que identifica uma pessoa por meio de uma imagem ou vídeo. Nos Estados Unidos, cerca de 130 milhões de adultos já estão em bancos de dados de reconhecimento de rostos. Nas últimas feiras de tecnologia, esse recurso já é apresentado em uma série de novas (e inovadoras) aplicações, como detectar a expressão de satisfação, insatisfação ou indiferença dos consumidores na vitrine de uma loja, ou, ainda, criar estatísticas das prateleiras mais e menos vistas de determinado setor do supermercado.

7. Quando você pode chegar a qualquer lugar sem saber o caminho

Adeus guias de ruas, olá aplicativos de rotas. Hoje, é inimaginável se locomover sem um mapa virtual que nos oriente a virar à esquerda, manter-se à direita, contornar o tráfego pesado, corrigir o erro de caminho e tomar cuidado com a via esburacada. Graças à inteligência artificial, encostar para pedir informação ou se perder pelas cidades se tornou hábito do passado.

Em uma base cartográfica digitalizada, a tecnologia determina a posição do veículo utilizando sinais de satélites (GPS), e, em tempo real, cruza os dados desse deslocamento com os de outros carros para medir o quão lenta ou rápida está cada via. Assim, a ferramenta consegue indicar as melhores rotas e estimar o tempo do percurso.

8. Quando seu banco liga para confirmar uma compra no cartão de crédito

Cartões de crédito clonados e cadastros falsificados… Esses são alguns dos problemas que já são solucionados pela inteligência artificial. Os sistemas analisam comportamentos de consumo do cliente e detectam a possibilidade de fraude quando são feitos pagamentos fora do padrão. Na área cadastral, a inteligência artificial compara documentos (dados, ano de emissão, foto, assinatura) com os registros oficiais, que foram feitos de forma confiável pelo titular verdadeiro, para identificar inconsistências.

9. Quando existe um notebook configurado 100% para você

O Centro de Pesquisa e Desenvolvimento da Dell Technologies, no Rio de Janeiro, desenvolve tecnologias baseadas em Inteligência Artificial para aumentar a performance de seus produtos. As máquinas, por meio de algoritmos, serão configuradas automaticamente a partir de um padrão de comportamento do usuário. “Imagina que aquele equipamento é mais usado de manhã do que à tarde, ou mais nas segundas do que nas terças-feiras. Assim, conseguimos configurar essa máquina para ficar otimizada naquele modelo de uso específico”, conta Ana Oliveira, a diretora do Centro de Pesquisa.

As equipes de desenvolvimento trabalham hoje para que essa tecnologia também seja implantada em diversos produtos. “Nosso objetivo é que as máquinas fiquem mais inteligentes até que, no futuro, tenhamos data centers inteiramente self-drived [que consigam se coordenar e se corrigir autonomamente]”, projeta.

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